2. OS DADOS PATRÍSTICOS

Diante dos livros deuterocanônicos/eclesiásticos, os Pais não se comportaram todos da mesma forma. Alguns deles os listam entre os outros livros bíblicos, sem classificá-los em uma categoria especial. Mas, com mais frequência, eles os enumeram separadamente. No segundo século, Melitão de Sardes cita os Provérbios de Salomão, “chamado Sabedoria”, Παροιμίαι ἢ καὶ Σοφία.12 Talvez esse livro seja realmente Provérbios; neste caso, Melitão não lista nenhuma obra deuterocanônica. Mas pode ser que seja Sabedoria, que, então, deveria ser o único livro deuterocanônico indicado por Melitão em sua lista. Por volta de 400 AD, de acordo com João Crisóstomo, na Protheoria de sua Synopsis, os livros pertencentes ao gênero exortativo (τό συμβουλευτικόν) são Provérbios, Ben Sirá (que é o Eclesiástico), Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos.13 No texto que segue o Protheoria, 1-2 Crônicas é seguido por 1-2 Esdras, Ester, Tobias, Judite, Sabedoria, Provérbios, Ben Sirá, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e os Doze. Entre os latinos, a lista de Cheltenham e o Decreto Gelasiano citam os livros deuterocanônicos em um nível igual aos canônicos.14 O mesmo ocorre em Agostinho: Tobias, Ester, Judite e 1-2 Macabeus são citados entre Jó e 1-2 Esdras (De doctrina christiana II 8,13).15

Quando eles comentam a Bíblia ou fazem citações dela, os Pais, com frequência, consideram os livros deuterocanônicos como Escritura. Sabedoria é citado como Escritura por Clemente de Roma, Taciano, a carta a Diognetus, Irineu, Clemente de Alexandria, Cipriano e outros. Aqui estão os livros deuterocanônicos que Orígenes cita como Escritura em seu tratado De Principiis 2 Macabeus 7,28 (em II 1,5); Sabedoria 11,20 (em II 9,1 e IV 4,8) e 15,11 (em III 4,1); Tobias 5,4 (em II 1,5); Sabedoria 11,20 (em II 9,1 e IV 4,8) e 15,11 (em III 4,1); Tobias 5,4 (em III 2,4) e 13,18 (em II 3,5); Ben Sirá 6,4 (em II 8,4); 16,21 (em IV 3,14); 43,20 (em II 8,3); Susana 42 (em III 1,2 e III 1,17).

Com mais frequência, os Pais lidam com os livros deuterocanônicos separadamente. As listas que eles dão são mais ou menos numerosas. De acordo com Orígenes, que descreve o cânon dos hebreus, há apenas um livro “fora” (ἒξω) dos livros canônicos: os Macabeus (τά Μακκαιβαικά), cujo título hebraico é Sarbêthsabanaiel – um título sobre o qual muito tem sido escrito.16 Graças a Jerônimo, que, no assim chamado prólogo Galeatus, diz ter encontrado 1 Macabeus em hebraico e 2 Macabeus em grego, pode-se identificar os “Macabeus” com 1 Macabeus.17

Uma lista curta contendo apenas dois livros aparece em Epifânio, Panarion I 8,6,1-4: Sabedoria e Ben Sirá, que são considerados “em disputa” (ἐν ἀμφιλέκτῳ) e formam uma categoria que Epifânio distingue dos livros apócrifos.18 Em seu tratado De mensuris et ponderibus (§ 4), o mesmo Epifânio chama esses dois livros de “úteis” (χρήσιμοι) e “benéficos” (ὠφέλιμοι).19 De acordo com Josippus (final do quarto século AD), Ester e Macabeus estão “fora” (ἒξω) dos livros canônicos.20 Durante a primeira parte do oitavo século, de acordo com João Damasceno, os dois livros da Sabedoria, a de Salomão e aquela de Ben Sirá, são considerados virtuosos (ἐνάρετοι) e belos (καλαί), mas eles não estão incluídos entre os livros canônicos.21 No lado latino, Hilário de Poitiers (metade do quarto século AD) sustenta que Tobias e Judite são livros “adicionados” (additi): eles, provavelmente, são livros deuterocanônicos.22

Uma outra lista curta é atestada por volta de 600. De acordo com Barberinianus gr. 317, vinte e dois livros são comuns a hebreus e cristãos; então, a lista critica “alguns” (τινές) por não mencionar os livros “restantes” (τά λοιπά), que são a Sabedoria de Salomão, chamado também Panaretos, Ester, Tobias e Judite.23 À primeira lista curta, esta lista adiciona Sabedoria e Ester. Alguém pode estar surpreso pela menção de Ester, desde que esse livro pertence ao cânon hebraico. Mas, no Cristianismo antigo, o status deste livro é tripartido. Ester, com frequência, pertence ao cânon cristão. Algumas vezes, entre autores gregos e siríacos, tais como Melitão, Gregório Nazianzeno, Anfilóquio de Icônio e a antiga Peshitta, Ester não pertence ao cânon.24 E, por último, de acordo com Atanásio, o Pseudo-Atanásio (§ 2,41-46,74), Josippus e o Pseudo-Nicefóro, Ester não é nem canônico nem apócrifo: ele pertence à assim chamada categoria deuterocanônica.25 Acontece até de um Pai se contradizer. Orígenes cita Ester como Escritura em seu De Principiis (III 2,4), mas, quando está vivendo em Cesareia, se refere a ele no nível de Tobias, Judite e Sabedoria.26

Atanásio enumera cinco livros: Sabedoria, Ben Sirá, Ester, Judite e Tobias.27 A mesma lista é dada pelo Pseudo-Atanásio (Synopsis, § 2 e 41-46).28 Entre os Pais Latinos, Rufino enumera o que ele chama de livros eclesiásticos: os dois livros da Sabedoria, isto é, a de Salomão e a de Ben Sirá, Tobias, Judite e “os livros dos Macabeus”, provavelmente 1-2 Macabeus.29 No prólogo Galeatus, Jerônimo fala sobre os dois livros da Sabedoria, Judite, Tobias, 1-2 Macabeus.30 Por volta de 600, Isidoro de Sevilha diz que “os hebreus não recebem” Tobias, Judite e 1-2 Macabeus, mas adiciona que “a Igreja os inclui entre as Escrituras canônicas”. Ele dá, de forma precisa, informações relacionadas a Sabedoria e Ben Sirá.31

Uma lista ampla com nove livros é dada pela lista Oxoniensis Baroccianus 206: aqui, os livros “externos” (ἒξω) são enumerados de um a nove: Sabedoria de Salomão, Sabedoria de Ben Sirá, 1 Macabeus, 2 Macabeus, 3 Macabeus, 4 Macabeus, Ester, Judite, Tobias.32

Outras listas amplas são atestadas. Por volta de 900, Pseudo-Nicefóro lista 1-3 Macabeus, Sabedoria, Ben Sirá, os Salmos de Salomão, Odes, Ester, Judite, Susana e Tobias.33 Ele, provavelmente, contava esses dez livros como oito, 1-2 Macabeus sendo apenas um livro. De acordo com o Pseudo-Atanásio (quinto século?), há treze livros deuterocanônicos (§ 74): Sabedoria, Ben Sirá, Ester, Judite, Tobias, 1-4 Macabeus, “os livros Ptolemaicos”, os Salmos de Salomão e a Ode (no singular), Susana.34 Esta lista apresenta duas características curiosas: primeiro, 1-4 Macabeus junto com os livros Ptolemaicos, que é provavelmente 3 Macabeus, desde que esse livro conta a história de um rei ptolemaico; segundo, Susana, que, via de regra, acompanha Daniel. Pode-se notar que o mesmo autor, Pseudo-Atanásio, apresenta uma lista média (§ 2 e 41-46) bem como uma ampla (§ 74).

Em suma, os livros deuterocanônicos são caracterizados pela variabilidade. Este ponto já foi sublinhado no caso de Ester, que pertence ou não ao cânon, ou é um livro deuterocanônico. Outras variações podem ser apontadas. Primeiro, há mudanças entre os títulos: Provérbios é chamado de Sabedoria por Melitão e Panaretos Sophia por Hegesippus, Irineu e “todo o coro dos anciãos” (ὀ πᾶς τῶν ἀρχαίων χορος).35 Contudo, aqui, o livro poderia ser Sabedoria. De modo inverso, Panaretos é o título dado à Sabedoria por Epifânio (De mensuris et ponderibus 7), João Damasceno, Pseudo-Atanásio e a lista Baroccianus gr. 317. Ben Sirá é chamado de Sabedoria por Orígenes (De Principiis II 8,3), Panaretos por Jerônimo e Provérbios em um manuscrito hebraico que Jerônimo conhece (Prologus in libris Salomonis).36 Alguém pode estar perdido!

Há também variações na terminologia. Jerônimo que, via de regra, distingue livros deuterocanônicos e apócrifos, eventualmente classifica os primeiros entre os últimos no Prólogo Galeatus.37 No Dialogus Timothei et Aquilae (quinto ou sexto século), Timóteo chama de apócrifos Tobias, Sabedoria e Ben Sirá e sustenta que Judite pertence ao cânon hebraico.38 O Pseudo-Atanásio chama os livros deuterocanônicos de “contestados” (ἀντιλεγόμενα). Ele tomou essa palavra de Eusébio, mas este a usou apenas para livros do Novo Testamento e da era apostólica (Historia ecclesiastica III 3,6 e 25,3). Uma vez, falando sobre Tobias, Orígenes diz que os judeus o “contestam” (ἀντιλέγουσι, De Oratione 14). Assim, muita confusão é criada.

Uma variação e confusão final deve ser notada. Os Pais concordam que os livros deuterocanônicos são “úteis” e “benéficos” (Epiphanius, De mensuris et ponderibus 4). Mas eles não concordam sobre a maneira de definir essa utilidade. Orígenes, Atanásio e o Pseudo-Atanásio aconselham que os neófitos ou os catecúmenos lessem esses livros. No cânon apostólico 85, sua leitura é recomendada aos jovens, que não são necessariamente iguais aos catecúmenos.39 De acordo com Rufino (Expositio symboli 34-36) e Jerônimo (Prologus in libris Salomonis), os livros deuterocanônicos são de uso para a edificação pública, mas não para confirmar a autoridade de dogmas eclesiásticos. Em vista disso, talvez os leitores dos livros deuterocanônicos tenham mudado suas visões ao longo do tempo e do espaço.