HUGO DE SÃO VITOR

IN SCRIPTURAM SACRAM

CAPUT VI

De ordine, numero et auctoritate librorum sacrae Scripturae

SOBRE A SAGRADA ESCRITURA

CAPÍTULO VI

Sobre a ordem, o número e a autoridade dos livros da Sagrada Escritura

Omnis divina Scriptura in duobus Testamentis continentur, Veteri videlicet et Novo. Utramque Testamentum tribus ordinibus distinguitur: Vetus Testamentum continet legem, prophetas, agriographos. Novum autem Evangelium, apostolos, patres. Primus ordo Veteris Testameti, id est lex, quam Hebraei Thorath nominant, pentateuchon habet, id est quinque libros Moysi. In hoc ordine primus est Beresith, qui est Genesis. Secundus Hellesmoth, qui est Exodus. Tertius Vagethra, qui est Leviticus. Quartus Vagedaber, qui est Numeri. Quintus Elleaddaberim, qui est Deuteronomius. Secundus ordo est prophetarum, hic continet octo volumina. Primum est Bennum, id est filius Nun, qui et Josue et Jesus, et Jesus Nave nuncupatur. Secundum est Sothim, qui est liber Judicum. Tertium est Samuel, qui est primus et secundus Regum. Quartum Malachim, qui est tertius et quartus Regum. Quintum est Esaias. Sextum Jeremias, Septimum Ezechiel. Octavum Thereasra qui est duodecim prophetarum. Deinde tertius ordo novem habet libros. Primus est Job. Secundus Davi. Tertius Masloth, quod graece Parabolae, latine Proverbia sonat, videlicet Salomonis. Quartus Coeleth, qui est Ecclesiastes. Quintus Sirasirim, id est Cantica canticorum. Sextus Daniel. Septimus Dabreiamin, qui est Paralipomenon. Octavus Esdras. Nonus Esther. Omnes ergo fiunt numero viginti duo. Sunt praeterea alii quidam libri, ut Sapientia Salomonis, liber Jesu filii Sirach, et liber Judith, et Tobias, et libri Machabaeorum, qui leguntur quidem, sed non scribuntur in canone. His viginti duobus libris Veteris Testamenti, octo libri Novi Testamenti junguntur. In primo ordine Novi Testamenti sunt quatuor Evangelia: Matthaei, Marci, Lucae et Joannis. In secundo similiter sunt quatuor: Actus videlicet apostolorum, Epistolae Pauli numero quatuordecim sub uno volumine contextae. Canonicae Epistolae, Apocalypsis. In tertio ordinae primum locum habent decretalia, quos canonicos, id est regulares appellamus. Deinde sanctorum Patrum scripta, id est, Hieronymi, Augustini, Ambrosii, Gregorii, Isidori, Origenis, Bedae et aliorum doctorum, quae infinita sunt. Haec tamen scripta Patrum in texto divinarum Scripturarum non computantur, quemadmodum in Veteri Testamento, ut diximus, quidam libri sunt qui non scribuntur in canone, et tamen leguntur, ut Sapentia Salomonis et caeteri. Textus igitur divinarum Scripturarum, quasi totum corpus principaliter triginta libris continetur. Horum viginti duo in Veteri, octo vero in Novo Testamento (sicut supra monstratum est) comprehenduntur. Caetera vero scripta quasi adjuncta sunt, et ex his praecedentibus manantia. In his autem ordinibus, maxime utriusque Testamenti, apparet convenientia: quia sicut post legem prophetae, et post prophetas agiographi, ita post Evangelium apostoli, et post apostolos doctores ordine successerunt. Et mira quadam divinae dispensationis ratione actum est, ut, cum in singulis Scripturis plena et perfecta veritas consistat, nulla tamen superflua sit.

Toda a divina Escritura está contida em dois Testamentos, a saber, no Antigo e no Novo. Ambos os Testamentos se subdividem em três categorias: o Antigo Testamento contém a Lei, os Profetas e os Hagiógrafos. O Novo, o Evangelho, os Apóstolos e os Padres. A primeira seção do Antigo Testamento, ou seja, a Lei, que os hebreus chamam Thorah, contém o Pentateuco, ou seja, os cinco livros de Moisés. Nesta ordem: o primeiro é Beresith, que é Gênesis. O segundo, Hellesmoth, que é Êxodo. O terceiro, Vagethra, que é Levítico. O quarto, Vagedaber, que é Números. O quinto, Elleaddaberim, que é Deuteronômio. A segunda seção é a dos profetas, esta contém oito volumes. O primeiro é Bennum, ou seja, Filho de Nun, que também é denominado Josué, Jesus e Jesus Nave. O segundo é Sothim, que é o livro dos Juízes. O terceiro é Samuel, que é o Primeiro e o Segundo Livro dos Reis. O quarto é Malachim, que é o Terceiro e o Quarto Livro dos Reis. O quinto é Isaías. O sexto é Jeremias. O sétimo é Ezequiel. O oitavo é Thereasra, que é o livro dos Doze Profetas. Então, a terceira seção contém nove livros. O primeiro é Jó. O segundo é Davi. O terceiro é Masloth, que em grego quer dizer Parábolas, em latim Provérbios, a saber, de Salomão. O quarto é Coeleth, que é Eclesiastes. O quinto é Sirasirim, ou seja, Cânticos dos cânticos. O sexto é Daniel. O sétimo é Dabreiamin, que é Paralipômenos. O oitavo é Esdras. O nono é Ester. Todos se tornam, portanto, vinte e dois em número. Além disso, há alguns outros livros, como Sabedoria de Salomão, o livro de Jesus, filho de Sirach, e o livro de Judite, e Tobias, e os livros dos Macabeus, que, na verdade, são lidos, mas não enumerados no cânon. A estes vinte e dois livros do Antigo Testamento, ajuntam-se oito livros do Novo Testamento. Na primeira seção do Novo Testamento há quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. No segundo, similarmente, há quatro: Atos dos apóstolos, as Epístolas de Paulo. As Epístolas canônicas, Apocalipse. Na terceira seção, as decretais, que chamamos canônicos, ou seja, regulares, ocupam o primeiro lugar. Em seguida, os escritos dos santos Padres, ou seja, Jerônimo, Agostinho, Ambrósio, Gregório, Isidoro, Orígenes, Beda e outros doutores, que são infinitos. Contudo, estes escritos dos Pais não são computados no texto das divinas Escrituras, do mesmo modo que no Antigo Testamento, como dissemos, há alguns livros que não são enumerados no cânon, e, contudo, são lidos, como Sabedoria de Salomão e os outros. Portanto, o texto das divinas Escrituras, quase o corpo inteiro, está contido principalmente em trinta livros. Destes, estão compreendidos vinte e dois no Antigo, oito, porém, no Novo Testamento (como foi mostrado acima). Mas os outros escritos são como adjuntos e fluem dos que os precederam. Nestas seções, sobretudo de ambos os Testamentos, aparece um acordo perfeito: pois, assim como após a Lei, vieram os profetas, e após os profetas, os hagiógrafos, assim também após o Evangelho, vieram os apóstolos, e após os apóstolos, os doutores em sua ordem. E foi realizado por uma certa maravilhosa razão da divina dispensação, embora a verdade plena e perfeita se encontre em cada uma das Escrituras, nenhuma, no entanto, é supérflua.

CAPUT VII

De sacrorum librorum scriptoribus

CAPÍTULO VII

Sobre os autores dos livros sagrados

Quinque libros legis Moyses scripsit. Libri Josue idem Josue cujus nomine inscribitur, auctor fuisse creditur. Librum Judicum a Samuele editum fuisse credunt. Primam partem libri Samuelis ipse Samuel scripsit: sequentia vero usque ad calcem, David. Malachim Jeremias primum in volumen unum collegit; nam antea sparsus erat per singulorum regum historias, Isaias, Jeremias, Ezechiel, singuli suos libros fecerunt, qui inscripti sunt nominibus eorum. Liber etiam duodecim prophetarum auctorum suorum nominibus praenotatur, quorum nomina sunt. Osee, Joel, Amos, Abdias, Jonas, Micheas, Nahum, Habacuc, Sophonias, Aggeus, Zacharias et Malachias; qui propterea minores dicuntur, quia sermones eorum breves sunt, unde et uno volumine comprehenduntur. Isaias autem et Jeremias et Ezechiel et Daniel, hi quatuor majores sunt singulis suis voluminibus distincti. Librum Job, alii Moysen, alii unum ex prophetis, nonnulli ipsum Job scripsisse credunt. Librum psalmorum David edidit. Esdras autem postea psalmos ita ut nunc sunt ordinavit, et titulos addidit. Parabolas autem et Ecclesiastem, et Cantica canticorum Salomon composuit. Daniel sui libri auctor fuit. Liber Esdras auctoris sui titulo praenotatur, in cujus tectu ejusdem Esdrae Neemiaeque sermones pariter continentur. Librum Esther Esdras creditur conscripsisse. Liber Sapientiae apud Hebraeos nusquem est: unde et ipse titulus graecam magis eloquentiam redolet. Hunc quidam Judaei Philouis esse affirmant. Librum Ecclesiasticum certissime filius Sirach Hierosolymita nepos Jesu sacerdotis magni, cujus meminit Zacharias, composuit. Hic apud Hebraeos reperitur: sed inter apocryphos habetur. Judith vero et Tobias, et libri Machabaeorum, quorum ut testatur Hieronymus, secundus liber magis graecus esse probatur, quibus auctoribus scripti sunt minime constat.

Moisés escreveu os cinco livros da Lei. Acredita-se que o autor do livro de Josué tenha sido escrito pelo mesmo Josué, em cujo nome é intitulado. Eles creem que o livro de Juízes foi editado por Samuel. O próprio Samuel escreveu a primeira parte do livro de Samuel: a sequência, no entanto, até o fim, foi escrita por Davi. Jeremias compilou primeiro os Malachim em um único volume; pois antes estava disperso através das histórias de cada um dos reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel, cada um produziu seus próprios livros, que são intitulados com seus nomes. O livro dos Doze Profetas sob o nome de seus autores, cujos nomes são: Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageus, Zacarias e Malaquias; por isso são chamados menores, porque seus discursos são breves, donde também são compreendidos em um único volume. Por outro lado, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, estes quatro maiores estão separados em cada um de seus volumes. Uns creem que Moisés escreveu o livro de Jó, outros um dos profetas, alguns o próprio Jó. Davi editou o livro dos Salmos. Posteriormente, Esdras ordenou os salmos como estão agora, e adicionou títulos. Salomão compôs as Parábolas, o Eclesiastes e os Cânticos dos cânticos. Daniel foi o autor de seu livro. O livro de Esdras é designado pelo título de seus autores, sob cujo teto estão igualmente contidos os discursos de Esdras e Neemias. Acredita-se que Esdras tenha escrito o livro de Ester. O livro da Sabedoria não é encontrado em lugar nenhum entre os hebreus: por isso até o próprio título exala mais à eloquência grega. Alguns judeus afirmam que esta obra é de Filon. Muito certamente, o filho de Sirach, o Hierosolimita, neto do grande sacerdote Jesus, de quem Zacarias faz menção, compôs o livro do Eclesiástico. Este se encontra entre os hebreus, mas é considerado entre os apócrifos. Não consta, porém, de modo algum por quais autores foram escritos Judite, Tobias e os livros dos Macabeus, o segundo dos quais, como atesta Jerônimo, se prova que é um livro mais grego.

CAPUT VIII

De bibliothecae Veteris Testamenti reparatione

CAPÍTULO VIII

Sobre a restauração da biblioteca do Antigo Testamento

Bibliotecam Veteris Testamenti Esdras scriba, post incensam legem a Chaldaeis, dum Judaei ingressi sunt Jerusalem divino afflatus spiritu, reparavit; cuncaque legis as prophetarum volumina, quae fuerant a gentilibus corrupta, correxit; totumque Vetus Testamentum in viginti duos libros constituit, ut tot libri essent in lege, quot habebantur et litterae.

Após a Lei ser queimada pelos caldeus, o escriba Esdras, inspirado pelo divino espírito, restaurou a biblioteca do Antigo Testamento, enquanto os judeus estavam entrando em Jerusalém; e corrigiu os volumes da Lei e dos Profetas, que tinham sido corrompidos pelos gentios, e organizou todo o Antigo Testamento em vinte e dois livros, para que houvesse tantos livros na Lei quantas eram as letras.

CAPUT IX

De diversis Scripturae sacrae translationibus

CAPÍTULO IX

Sobre as diversas traduções da sagrada Escritura

Scripturam Veteris Testamenti prius in hebraica lengua editam constat. Postea Ptolomaeus qui Philapelphus cognominatus est, et secundus post Alexandrum Magnum regem AEgypti obtinuit, per septuaginta interpretes, quos ab Eleazaro pontifice acceperat, bibliothecam Veteris Testamenti in graeca linguam ex hebrea interpretari fecit. Et, ut aiunt quidam, ne posset decipi ab eis falsitate translationis, divisit eos, ut singuli in singulis cellis separati essent. Illi vero ita omnia per Spiritum sanctum interpretati sunt, ut nihil in unius codice inventum esset, quod in alterius similiter non inveniretur. Propter quod una est eorum interpretatio. Sed Hieronymus dicit, huic rei non esse adhibendam fidem.

Consta que a Escritura do Antigo Testamento foi editada primeiro em língua hebraica. Mais tarde, Ptolomeu, que foi cognominado Filadelfo e, sendo o segundo depois de Alexandre Magno, obteve o reino do Egito, assegurou que a biblioteca do Antigo Testamento fosse traduzida da língua hebraica para a grega pelos setenta intérpretes que ele tinha recebido do pontífice Eleazar. E, como alguns sustentam, para que não pudesse ser enganado por eles pela falsidade da tradução, dividiu-os, de modo que cada um estivesse separado em celas individuais. Eles, certamente, interpretaram tudo através do Espírito Santo, de maneira que nada teria sido encontrado no códice de um que não pudesse ser encontrado de modo semelhante no de outro. Por isso, uma só é a interpretação deles. Mas, Jerônimo disse que a fé não deve aderir a estas coisas.

Post ascensionem vero Domini, praedicantibus apostolis Evangelium, haec eadem translatio in gentibus reperta est, et secundum hanc ab Ecclesiis Christi primum sacrae Scripturae legi coeperunt. Postea vero, quia eidem translationi quaedam deesse probata sunt, quae in hebraica veritate tam ipsius Christi quam apostolorum praedicantium auctoritas contineri promulgaverat, conati sunt et alii sacram Scripturam de hebraica lingua in graecum transferre sermonem. Secundam igitur et tertiam et quartam translationem fecerunt Aquila, Symmachus, Theodotion. Quorum primus videlicet Aquila, Judaeus, Symmanchus vero et Theodotion Hebionitae haeretici fuerunt. Obtinuit tamen usus, ut post Septuaginta interpretes Ecclesiae graecorum eorum reciperent exemplaria et legerent.

Após a ascensão do Senhor, enquanto o Evangelho era pregado pelos apóstolos, esta mesma tradução foi encontrada entre os gentios, e foi de acordo com ela que as Sagradas Escrituras começaram a ser lidas pelas Igrejas de Cristo. Depois, porém, porque se demonstrou que algumas coisas faltavam a essa mesma tradução, que a autoridade tanto do próprio Cristo quanto da pregação dos apóstolos contida na verdade hebraica tinha promulgado, esforçaram-se também outros para traduzir a Sagrada Escritura da língua hebraica para o idioma grego. Portanto, Áquila, Símaco e Teodósio fizeram uma segunda, uma terceira e uma quarta tradução. Destes, o primeiro, ou seja, Áquila, era judeu, mas Símaco e Teodósio eram heréticos hebionitas. O uso, todavia, prevaleceu, de modo que, após os setenta intérpretes, as Igrejas dos gregos recebiam seus exemplares e os liam.

Post haec accessit quinta, quae Vulgaris dicitur, quae quodam tempore in Jericho reperta est. Sed quis auctor ejus fuerit, usque hodie ignoratur. Sextam et septimam Origenes fecit, cujus codices Eusebius et Pamphilus vulgaverunt. Octavo loco Hieronymus accessit, non jam de hebraeo in graecum sicut priores, sed de hebraeo in latinum transferens sermonem. Cujus translatio, quia hebraica veritati concordare magis probata est, idcirco Ecclesia Christi per universam latinitatem prae caeteris omnibus translationibus, quas vitiosa interpretatio, sive prima de hebraeo in graecum, sive secunda de graeco in latinum facta, corruperat, hanc solam legendam et in auctoriate habendam constituit. Usu autem pravo [primo] invalescente, qui nonnunquam solita magis quam vera appetit, factum est, ut diversas diversis sequentibus translationes ita tandem omnia confusa sint, ut pene nunc cui tribuendum sit, ignoretur.

Depois disso, apareceu uma quinta, que é chamada de Vulgar, descoberta em Jericó em um certo tempo. Mas quem teria sido seu autor, até hoje é ignorado. Orígenes fez a sexta e a sétima, cujos códices foram publicados por Eusébio e Pânfilo. Em oitavo lugar, apareceu Jerônimo, já não traduzindo do hebraico para o grego, como os anteriores, mas do hebraico para o idioma latino. Porque sua tradução se provou concordar mais com a verdade hebraica, a Igreja de Cristo estabeleceu que, por toda a latinidade, apenas ela deveria ser lida e tida em autoridade, em detrimento de todas as outras traduções, que uma interpretação defeituosa (seja a primeira feita do hebraico para o grego, ou a segunda do grego para o latim) tinha corrompido. Prevalecendo, porém, em um primeiro momento, o uso corrompido, que, por vezes, busca mais o habitual do que o verdadeiro, aconteceu que, seguindo-se diversas traduções por diversas pessoas, de tal modo todas as coisas, enfim, se confundiram que agora quase se ignora a quem a autoria deve ser atribuída.

CAPUT X

De scriptoribus Novi Testamenti

CAPÍTULO X

Sobre os autores do Novo Testamento

Plures Evangelia scripserunt, sed quidam sine Spiritu sancto magis conati sunt ordinare narrationem, quam historiae texere veritatem. Unde santi Patres, per Spiritum sanctum docti, quatuor tantum in auctoritatem receperunt Evangelia, id est, Matthaei, Marci, Lucae, Joannis, ad similitudinem quatuor fluminum paradisi, et quatuor vectium arcae, et quatuor animalium in Ezechiele.

Muitos escreveram Evangelhos, mas alguns, sem o Espírito Santo, tentaram mais ordenar a narração do que tecer a verdade da história. Donde os santos Padres, instruídos pelo Espírito Santo, receberam apenas quatro Evangelhos em autoridade, a saber, de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João, à semelhança dos quatro rios do paraíso, dos quatro ferrolhos da arca e dos quatro animais em Ezequiel.

Primus Matthaeus Evangelium suum scripsit hebraice. Secundus Marcus, graece scripsit. Tertius Lucas, inter omnes Evangelistas graeci sermonis eruditissimus, Evangelium suum scripsit, Theophilo archiepiscopo, ad quem etiam Actus apostolorum scripsit. Quartus et ultimus Joannes Evangelium suum scripsit. Paulus quatuordecim scripsit epistolas. Canonicae epistolae septem sunt, una Jacobi, duae Petri, tres Joannis, una Judae. Apocalysim scripsit Joannes apostolus in Pathmo insula.

O primeiro, Mateus, escreveu seu Evangelho em hebraico. O segundo, Marcos, escreveu em grego. O terceiro, Lucas, o mais erudito de língua grega entre todos os evangelistas, escreveu seu Evangelho ao arcebispo Teófilo, a quem também escreveu os Atos dos Apóstolos. O quarto e último, João escreveu seu Evangelho. Paulo escreveu quatorze epístolas. Há sete epístolas canônicas: uma de Tiago, duas de Pedro, três de João e uma de Judas. João apóstolo escreveu o Apocalipse na ilha de Patmos.

CAPUT XI

De scriptis aprocryphis

CAPÍTULO XI

Sobre os escritos apócrifos

Hi sunt scriptores sacrorum librorum, qui per Spiritum santcum loquentes, ad eruditionem nostram praecepta vivendi regulamque conscrisperunt. Praeter haec, alia volumina aprocrypha nominantur, apocrypha autem dicta, id est abscondita et secreta, quia in dubium veniunt. Est enim eorum origo occulta, nec patet sanctis Patribus a quibus edita sint. In quibus etsi aliqua veritas, tamen, propter multa falsa, nulla est in eis canonica auctoritas: quod recte non judicatur esse eorum quibus ascribuntur: nam multa sub nominibus prophetarum, et recentiora sub nominibus apostolorum ab haereticis proferuntur; quae omnia sub nomine apocryphorum a divina auctoritate per examinationem remota sunt.

Estes são os autores dos livros sagrados, que, falando através do Espírito Santo, escreveram preceitos e regra de vida para nossa erudição. Além destes, outros volumes são chamados de apócrifos; ditos apócrifos, ou seja, escondidos e secretos, porque são expostos à dúvida. Pois a origem deles é oculta, nem é evidente para os Santos Padres por quem teriam sido editados. Ainda que haja alguma verdade nessas obras, contudo, por causa de muitas coisas falsas, não há nelas autoridade canônica: porque justamente não se julga que pertencem àqueles aos quais são atribuídas; pois muitas coisas foram produzidas pelos heréticos sob os nomes dos profetas e, as mais recentes, sob os nomes dos apóstolos; todas que, sob o nome de apócrifos, através de exame, foram removidas da autoridade divina.

CAPUT XII

De bibliothecae interpretatione, et variis librorum nominibus

CAPÍTULO XII

Sobre a interpretação da biblioteca, e os nomes de vários livros

Bibliotheca a graeco nomen accepit, eo quod ibi libri recondantur. Nam biblion librorum, theca repositio interpretatur. Codex multorum librorum est, liber unius voluminis, et dictus codex per translationem a caudicibus arborum sive vitium, quasi caudex quod in se multitudinem librorum quasi ramorum contineat. Volumen dicitur a volvendo. Liber est interior cortex arboris, in quo antiqui, ante usum membranae, solebant scribere, unde scriptores librarios vocabant, inde dictus est liber volumen. Tractatus est unius rei multiplex expositio. Testamentum dicitur sacra Scriptura, humana consuetudine dante ocasionem: antiquitus enim qui carebant liberis adoptabant sibi filios, et cum constituebant illos haeredes, vocabant testes et scribebant chirographum, non erat tamen ita ratum quin posset mutari, nisi mortuo testatore. Similiter Deus unum solum Filium habens ex natura, multos voluit adoptare ex gratia. Et primitus unum elegit Abraham; cui praecepit exire de cognatione sua, et promisit terram Palaestinam; nec tamen ipse legitur inde aliquid possedisse. Posthac filiis Israel eductis de AEgypto, eamdem terram Palaestinam repromisit, et ne dubitarent, fecit Testamentum in certitudinem promissae haereditatis scilicet legem quae per Moysen data est. Sed quia Deus non poterat mori, et testamentum morte testatoris confirmandum erat, interfectus est pro eo agnus mysticus, cujus sanguine respersus est liber et totus populus, in confirmationem promissae haereditatis. Eodem modo Dominus Jesus Christus vocans ad aeternam haereditatem, non unum tantum hominem, sed omnes gentes, fecit testamentum, Evangelium videlicet. In cujus confirmationem non agnus ille antiquus occiditur; sed ipse (quia homo erat et mori potuit) mortem subiit.

A biblioteca recebeu seu nome do grego, porque ali os livros são guardados. Pois biblion é traduzido por «de livros», theca, depósito. O códice consiste de muitos livros, o livro de um só volume. É chamado códice (codex) por transposição dos troncos das árvores ou de videiras, como um tronco (caudex), porque contém em si uma multidão de livros, como se fossem ramos. Volume (volumen) deriva de desenrolar (volvere). Livro (liber) é a casca interior da árvore, no qual os antigos, antes do uso do pergaminho, costumavam escrever. Por isso chamavam os escritores de copistas (librarii), daí o livro foi chamado de volume. Tratado é a exposição considerável de um único assunto. A Sagrada Escritura é chamada de Testamento, dando a ocasião o costume humano: pois, outrora, aqueles que careciam de descendentes adotavam filhos para si e, quando os constituíam herdeiros, chamavam testemunhas e redigiam um quirógrafo, não estava, contudo, tão ratificado que não pudesse ser mudado, exceto com a morte do testador. Semelhantemente, Deus, tendo um único Filho por natureza, quis adotar muitos pela graça. E, inicialmente, elegeu um, Abraão, a quem ordenou que saísse de sua parentela e prometeu a terra da Palestina; contudo, não se lê que ele próprio tenha possuído alguma coisa desse lugar. Depois, quando os filhos de Israel foram retirados do Egito, Ele prometeu de novo a mesma terra da Palestina e, para que não duvidassem, fez um Testamento para confirmação da herança prometida, ou seja, a lei que foi dada por meio de Moisés. Mas, porque Deus não poderia morrer, e um testamento devia ser confirmado pela morte do testador, em seu lugar foi morto um cordeiro místico, com o sangue do qual foram aspergidos o livro e todo o povo, para confirmação da herança prometida. Do mesmo modo, o Senhor Jesus Cristo, chamando à eterna herança, não somente um homem, mas todos os povos, fez um testamento, a saber, o Evangelho. Para sua confirmação, não é imolado aquele antigo cordeiro; mas Ele mesmo (porque era homem e podia morrer) suportou a morte.

Et sicut Deus ad Vetus Testamentum dandum vocaverat testes, Aaron scilicet et Mariam sororem ejus et Ur; ita Christus, qui majora promisit, plures vocavit testes, apostolos, videlicet et martyres. Vetus dicitur Testamentum primum, vel quia prius datum, vel quia de veterascentibus est institutum. Novum dicitur secundum, quia de immutabilibus et semper novis loquitur. Propheta tripliciter dicitur, officio, gratia, missione. Officio, sicut quando eligebatur aliquis qui imminente bello de dubiis consuleret Dominum, sive per assumptum ephot, sive alio quolibet modo. Gratia, sicut ille cui Dominus per internam inspirationem dabat notitiam rerum, quam nec natura nec disciplina habere poterat sed sola gratia, sicut David et Daniel et Job. Missione, sicut ille quem mittebat Dominus ad praedicandum ea quae ei inspiraverat, ut Jonas. Sed tamen sicut in istis diebus non dicuntur episcopi, nisi qui officii dignitatem et potestatem habent, licet meritum habeant et virtutem hujus nominis abundantius illis qui episcopi sunt, ita nec prophetae essent. Unde David, Job, Daniel, licet contineant prophetias in libris suis: inter agiographos tamen positi sunt, et e contrario Josue, liber Judicum et libri Samuelis, et Regum qui solam historiam texuerunt vel texere videntur, inter Prophetas connumerantur.

E assim como Deus, ao outorgar o Antigo Testamento, tinha chamado testemunhas, a saber, Aarão, Maria sua irmã e Ur; assim também Cristo, que prometeu coisas maiores, chamou muitas testemunhas, a saber, os apóstolos e os mártires. O Antigo Testamento é chamado de «primeiro», ou porque foi dado antes, ou porque é um tratado acerca de coisas que envelhecem. O Novo é chamado de «segundo», porque fala acerca de coisas imutáveis e sempre novas. Identifica-se um profeta de três maneiras: pelo ofício, pela graça e pela missão. Pelo ofício, como quando era escolhido alguém que, diante da guerra iminente, deveria consultar o Senhor acerca de dúvidas, seja por meio do éfode assumido, ou por qualquer outro modo. Pela graça, como aquele a quem o Senhor, por meio de inspiração interna, dava conhecimento das coisas que não podia possuir nem pela natureza, nem pela disciplina, mas somente pela graça, como Davi, Daniel e Jó. Pela missão, como aquele a quem o Senhor enviava para pregar as coisas que Ele tinha lhe inspirado, como Jonas. Mas, contudo, assim como nestes dias não são chamados bispos, senão aqueles que têm a dignidade e o poder do ofício, embora tenham mérito e a virtude deste nome mais abundantemente do que aqueles que são bispos, assim também não eram chamados profetas, a menos que fossem profetas por ofício ou por missão. Por isso Davi, Jó e Daniel, embora contenham profecias em seus livros, são, contudo, colocados entre os hagiógrafos, e, ao contrário, Josué, o livro de Juízes e os livros de Samuel e dos Reis que teceram ou parecem tecer só história, são enumerados entre os Profetas.

Quaeritur etiam, cur novem tantum dicantur agiographi, id est sancti scriptores, cum hoc nomen conveniat omnibus sacrae Scripturae auctoribus? Ad quod respondendum, quia quod nullam habet specialem proprietatem qua distinguatur a caeteris, commune nomen quasi proprium obtinet, non ex praerogativa, sed potius quasi ex quadam indignitate respectu aliorum, sicut in novem ordinibus angelorum minimus simpliciter obtinet commune nomen, et quaerenti quis sit, respondetur: angelus est, cum etiam principatus et potestates angeli sint. Apocryphus, id est dubius et adsconditus liber duobus modis dicitur: vel quia auctor ejus incertus, vel quia communi assensu fidelis synagoge vel ecclesiae non est receptus et confirmatus, etsi etiam nihil in eo eo [pravi, Ed.] reperiatur. Unde et liber Job apocryphus est, quia dubii auctoris, in canone tamen confirmatus est auctoritate fidelis synagogae. Item Ecclesiasticus, liber Sapientiae Salomonis et duo libri Machabeaorum, Tobias, Judith, et liber Jesu filii Sirach apocryphi sunt, leguntur tamen et ad Vetus Testamentum pertinent, sed non sunt confirmati in canone.

Pergunta-se ainda, por que somente nove são chamados hagiógrafos, isto é, santos escritores, quando este nome conviria a todos os autores da Sagrada Escritura? A isso deve-se responder que, porque não tem nenhuma propriedade especial pela qual se distinga dos demais, tem um nome comum como próprio, não por prerrogativa, mas antes como por uma certa indignidade em relação aos outros; como entre as nove ordens dos anjos, o menor simplesmente obtém o nome comum, a quem pergunta quem é, responde-se: é um anjo, visto que também os principados e potestades são anjos. Apócrifo, isto é, livro duvidoso e escondido, é compreendido de duas maneiras: ou porque seu autor é incerto, ou porque não foi recebido e confirmado pelo comum assentimento dos fiéis da sinagoga ou da igreja, ainda que nada de defeituoso seja encontrado nele. Por isso, também o livro de Jó é apócrifo, porque é de autor duvidoso, contudo, foi confirmado no cânon pela autoridade da sinagoga fiel. Do mesmo modo, o Eclesiástico, o livro da Sabedoria de Salomão e os dois livros dos Macabeus, Tobias, Judite e o livro de Jesus filho de Sirac são apócrifos, contudo, são lidos e pertencem ao Antigo Testamento, mas não foram confirmados no cânon.


FONTE

HUGONIS DE S. VICTORE, In Scripturam Sacram. De Scripturis et Scriptoribus Sacris. In: J. P. MIGNE, Patrologia Latina, Tomus CLXXV, Paris: Petit-Montrouge, 1854. p. 15-20.